Vila de sorrisos e de história

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A pouco mais de 18 km de distância do centro de Belém, Icoaraci é um dos distritos mais carismáticos da capital paraense. Apesar de seu grande potencial industrial e da forte rotina de feiras a céu aberto do lugar, o artesanato em cerâmica acaba sendo a primeira referência que vem ao imaginário coletivo local quando o assunto é a Vila Sorriso. Não é para pouco: o bairro do Paracuri é o grande polo de difusão dos típicos vasos de barro, de traços geométricos, característicos de povos indígenas icônicos como a nação marajoara e a tapajônica – não só para o estado, mas para a região amazônica como um todo. Cultura, aliás, é braço forte não só no aspecto das artes manuais. As danças folclóricas, a música e a poesia também falam alto da vila, que tem nomes como Mestre Verequete e Nazaré Pereira entre seus expoentes. Mas, além do passeio na orla para uma água de coco ou o almoço na beira do rio, o que mais sabemos da história de Icoaraci? A Status apurou a trajetória da Vila e resume agora para você.

 

Estação Pinheiro – início do século 20, chegávamos a Icoaraci de barco ou de trem.

 

A história de Icoaraci é tão antiga quanto a de Belém – e suas narrativas se misturam quanto à fundação. Foi justamente a expedição de Francisco Caldeira Castelo Branco que aportou na ponta de terra que unia os rios Guajará e Maguari. Pela grande presença de favos de mel na região, o primeiro apelido da recém-encontrada terra foi “Ponta de Mel”. Os portugueses chegaram a cogitar a posição estratégica da ponta para a construção de um forte, mas a ideia não foi pra frente. No início dos anos 1700, Sebastião Gomes de Souza requereu a terra ao então Governador da Província do Maranhão e Grão-Pará, a fim de instalar ali um engenho. Após a concessão de Dom Pedro II, rei de Portugal, nasceu no território a Fazenda Pinheiro. 60 anos mais tarde, o terreno foi vendido; e o novo dono acabou doando o patrimônio – outros 60 anos depois, já no leito de morte – ao Convento de Nossa Senhora do Monte Carmo.

Já na propriedade da Ordem dos Frades Carmelitas Calçados, a fazenda cresceu de tamanho ao ter a terra unida à Fazenda Livramento, que era vizinha, e foi comprada pelo Tenente-Coronel João Antônio Corrêa Bulhões. O militar ainda adquiriu parte da ilha de Caratateua, onde hoje é o Outeiro. Sua filha e herdeira vendeu as terras de volta ao governo na metade do século XIX – teoricamente, para que lá funcionasse um lazareto administrado pela Santa Casa de Misericórdia. O projeto acabou inviabilizado, e só no fim de 1869 é que uma Lei Provincial transformou a fazenda em povoado. De lá para cá, já se chamou Santa Izabel, São João Batista e Vila Pinheiro. Apenas em 1943 é que o interventor Magalhães Barata a tornou, oficialmente, Icoaraci. O nome ainda é fruto de debates. Entre as possíveis traduções, estão “de frente para o sol” e “sol do rio”, de origem Tupi; e “mãe de todas as águas”, da mescla Tupi-Guarani.

 

Rua Siqueira Mendes

O afetuoso apelido “Vila Sorriso” levou um pouco mais de tempo para surgir: veio pelas mãos do jornalista Aldemyr Feio, em 1969. O articulador, à época, fazia parte de uma espécie de comissão auxiliar do prefeito de Belém, Stélio de Mendonça Maroja. A autoridade havia nomeado o engenheiro rodoviário Evandro Simões Bonna como subprefeito, e estes passaram a trabalhar em conjunto com líderes comunitários e outras figuras estratégicas em prol de políticas públicas para o distrito. Havia a intenção de emplacar um nome para a administração icoaraciense, e o marco do primeiro centenário da vila já se aproximava. Foi quando Francisco Pires Cavalcante, oficial da marinha reformado e músico, procurou a comissão para mostrar um hino que havia escrito para a data especial. Uma pequena curiosidade: Francisco também foi o autor da célebre marchinha do Paysandu, que até hoje é considerado o hino do clube. Como a comissão se interessou em oficializar a canção para celebrar o marco, o compositor a lançou – com o apoio da prefeitura – em um disco single: de um lado, o hino; do outro, um samba chamado Vila Modesta, também em homenagem a Icoaraci. A esse momento, muitos termos eram utilizados para se referir ao lugar, e Vila Famosa era o mais popular. Inspirado pelo hino do centenário – que dizia que “a vida passa, passa e ninguém se embaraça/ a gente é feliz todo dia sem olhar no calendário/ A nossa vila sem feitiço, sem mandinga (…)” – Aldemyr adaptou o apelido para Vila Sorriso. Passou a utilizá-lo em suas publicações no jornal e em outras manifestações midiáticas, o que rapidamente foi reproduzido por radialistas – os grandes influencers da época. Assim, Icoaraci se tornou, carinhosamente, Vila Sorriso, simbolizando a alegria de viver na ponta mais doce da nossa capital.

 

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